O ILUSÓRIO PODER DA GAMBIARRA

Recentemente assisti a uma palestra de um médico católico sobre a sexualidade humana nos planos de Deus. Numa pequena sala, para um seleto grupo de casais, ele mostrava através de slides projetados na parede, os órgãos reprodutores masculino e feminino, suas partes, funções, os tempos, os movimentos, as medidas, os números, a matemática, a química, a física, a prosa e a poesia, a música e a dança, a criatividade, a genialidade, o sopro do Espírito misturando homem e mulher numa insuperável obra de arte.

Na mulher, os ovários, as trompas, o útero, o endométrio, a vagina, etc. Esses os personagens dançando ao ritmo de uma música intitulada ciclo menstrual. Um verdadeiro balé, uma sinfonia. No homem, os testículos, pênis, canal deferente, uretra, vesícula seminal, tudo preparado, ensaiado, coreografado para introduzir milhares de participantes na dança, aliás, milhares não, milhões de dançarinos alucinados para bailar.

Tudo isso ali naqueles slides que representavam o poder de Deus. O seu poder exclusivo de criar a vida.

Em outro slide, o doutor destrinchava a manipulação que o homem faz dessa obra. Vasectomia, laqueadura, pílulas, enfim, todo o artefato bizarro da contracepção. Ali o homem impõe um hormônio, inventa um remédio, introduz um mecanismo, recorta de um lado, costura de outro, emenda, remenda, pinta e borda.

O homem, enfim, exerce o seu poder. Acontece que todo o poder que o homem tem foi dado por Deus. Inclusive o poder de negá-lo. Lembrei-me de uma passagem do evangelho:

“Pilatos então lhe disse: “Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar?” Respondeu Jesus: “Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado.”

São João 19, 10-11

Nas palavras de Chesterton, “se não houvesse Deus, não haveriam ateus”. Deus, portanto, deu ao homem, a todos os homens, ateus e crentes, deu até aos católicos, a mim, a você, o poder de negar a vida, o poder de assassinar, de manipular, de evitar. O estupendo poder de ter medo.

Numa frase do genial conto de Machado de Assis, “A Igreja do Diabo”, o Diabo diz: “Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.”

Quando Deus usa seu poder para criar a vida, Ele é um Artista. Quando o homem usa seu poder para negar a vida, ele é um empecilho.

Montei em minha mente dois grandes slides, um ao lado do outro. De um lado, a maravilhosa obra projetada por Deus, a fantástica Fábrica da Vida. De outro lado, o que o homem conseguiu fazer empurrando a Fábrica para um fundo de garagem.

Os slides que estavam do lado de Deus, naquele momento para mim formavam a imagem de uma grande obra de arte. Fiquei procurando uma comparação que me ajudasse a compreender esses pequenos e grandes mistérios que se projetavam na minha frente. Uma arte… com qual arte eu poderia comparar a criação da vida? Uma que eu acho incrível, majestosa, é a Arquitetura. As grandes construções do homem me impressionam, principalmente as catedrais. As belas catedrais me arrebatam. Acho que uma arte usada por Deus é a arquitetura. Sim, sem dúvida Ele é um grande Arquiteto. A obra prima da arquitetura divina é o corpo humano. É claro que o homem, quando vai realizar um projeto arquitetônico, necessita muito estudo, horas e horas de planejamento, ou talvez dias e dias de trabalho. Já Deus, como se brincasse de massinha, pega um pouco de barro e modela o ser humano. Projeta e executa a estrutura mais complexa de toda a natureza em poucas horas, ou minutos, não sei quanto tempo levou Deus para modelar o homem, menos de um dia com certeza.

Outra manifestação artística de Deus é a ópera. Isso porque esse corpo não vai ficar parado, ele terá uma história. Deus quer contar uma história através desse corpo. Nada melhor que a ópera já que a vida humana é um drama teatral acompanhado de música, diálogos e um enredo que emociona. Nunca assisti a uma ópera, mas pelo que dizem, emociona. Se for boa mesmo, vai emocionar. E toda encenação dirigida por Deus, emociona. Alguns meses antes dessa palestra médica que estou descrevendo, durante algumas reuniões do grupo da Igreja do qual participo, as pessoas contaram resumidamente suas histórias e, principalmente, a intervenção de Deus em suas histórias. Lembro-me perfeitamente que durante aqueles encontros um pensamento foi se confirmando em minha mente e no final daquele tempo eu tive certeza de que cada uma daquelas histórias de vida dariam um excelente livro, ou talvez um grande filme. E o motivo é óbvio. Qualquer ser humano que se deixa conduzir por Deus, ao menos um pouquinho, sai de um roteiro previsível e entra no mundo das surpreendentes e irresistíveis linhas tortas de Deus. Quando um espermatozoide encontra seu óvulo, ou melhor, quando o óvulo recebe seu tão esperado príncipe espermatozoide encantado, começa uma história a ser contada, uma ópera divina destinada a emocionar até os anjos.

Agora, veja só. Não é só de arquitetura e ópera que se faz um grande artista como Ele. Deus também é um grande chefe de cozinha. O verdadeiro e eterno masterchef. O evangelho está cheio de referências à banquetes. Deus cuida de tudo, do local, da organização, da comida, dos convites, ele até serve às mesas. Nos slides que representavam a obra de Deus, cabia a imagem de um banquete. Do mesmo banquete que o pai faz para o filho arrependido que volta para casa, do mesmo banquete oferecido aos servos bons e fiéis que administraram corretamente seus talentos, do mesmo banquete ao qual é convidado cada casal de óvulo e espermatozoide desde o primeiro momento em que se olham e se dão as mãos.

A conclusão que cheguei admirando aquelas projeções na parede foi a seguinte: Quando Deus e o homem exercem seu poder em relação à vida, a obra que surge desse poder é bem diferente:

De um lado, a obra de Deus é uma Arquitetura. Do outro, a obra do homem é um garrancho.

A obra de Deus é uma Ópera. A do homem uma gambiarra.

A obra de Deus é um Banquete de finas iguarias. A do homem é o cúmulo da gororoba.

Se Cristo é o caminho, o ser humano inventou o desvio. Se Cristo é a verdade, o ser humano inventou a desculpa. Se Cristo é a vida, o ser humano inventou a contracepção.

Mas não era para ser assim. Não, não era. Aquele médico, inspirado, disse uma palavra importantíssima, que eu ouvi, os casais ali ouviram e todos nós deveríamos repeti-la todos os dias: co-criação. Que palavra linda! Parece feia, mas é linda! Co-criação… Pois é isso que Deus deseja, que sejamos co-criadores da sua obra, não adversários. Quer nos pôr no caminho, nos jogar na verdade, nos abrir à vida. Ele quer que assinemos com ele suas obras primas. Mesmo sendo apenas lápis, podemos realizar sua arquitetura divina. Mesmo desafinados, podemos realizar sua ópera divina. Mesmo sendo apenas um pouco de sal, podemos temperar seu banquete.

Veja só. A obra prima da arquitetura de Deus é o corpo humano. A ópera de Deus é a nossa história. O banquete de Deus é a eternidade.

Deus quer que façamos com ele uma obra. Uma obra que tenha um corpo e uma história e que esse corpo, passando pela história, chegue à eternidade.

À essa obra chamamos comumente de filho ou filha.

Enquanto escrevo, meu pequeno chora. Preciso ir lá. Pego no colo e contemplo. Não é apenas uma criança a chorar, atrapalhando meu trabalho, adiando meu descanso. Ele é obra de Deus com participação minha e da minha esposa. Deus desceu do céu nele a sua Arquitetura, toda a sua genial capacidade de combinar bochechas com sorrisos. Desceu do céu sobre ele a sua Ópera, sua mania de dançar e cantar alegrias e tragédias. Desceu do céu sobre ele seu Banquete, sua capacidade inigualável de fazer festa.

Enquanto balanço a criança compondo mais uma cançãozinha de ninar sem sentido, outra me abraça a perna e também chora querendo o mesmo colo do irmão. Passeio com eles pela casa, carregando um, arrastando o outro. Chego na sala, a porta está aberta, ali fora, no alpendre, fica uma rede. Olho para essa rede e não resisto a um sorriso. Sabem por quê? Porque essa rede era meu ideal quando casei. Durante as visitas que fizemos para escolher uma casa para alugar, o primeiro item que me preocupava era se havia gancho de rede na parede. Eu sonhava em chegar cansado do trabalho e esquecer da vida por um breve momento  na minha rede querida. Já que não tinha intenção de passar no boteco para tomar umas, meu momento de relaxamento seria a rede. Era meu projeto de vida. Ter um tempo para deitar na rede. Era a minha obra.

Dezenove anos depois, a rede continua ali. Eu nunca me deitei nela.

Agora olho e sorrio, pois ali na rede, neste momento, tem quatro crianças brincando. Duas empurrando e duas sendo empurradas. Graças a Deus, duas crianças já foram para cama. Esses todos são projeto de Deus, fazem parte da sua obra na minha vida. São meus filhos. Com uma conta de somar rápida dá para saber quantos são.

Eu não seria capaz de idealizar isso sozinho. Ainda bem que, neste caso, não exerci meu poder de ter medo.

A palestra médica, naquele dia, chegou ao fim. As luzes se apagaram, todos foram embora e os slides continuaram no meu coração. O poder de Deus e o poder do homem.

Duas outras imagens se formam agora no meu espírito. De um lado, meus meninos e meninas, uns se divertindo na rede, outros chorando, alguns dormindo. De outro lado, o que era meu ideal, meu descanso merecido na rede. De um lado, a arquitetura divina, do outro, o garrancho humano. Minto, nem um garrancho não era, apenas um gancho.

Pois é… Duas obras, dois projetos de vida. O projeto do homem é ele mesmo. O projeto de Deus é sempre o outro.

A obra do homem é o raciocínio. A obra de Deus é a comunhão!


Photo by Ben White on Unsplash

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