Evangelho do dia

E OS FILHOS? SÃO DE CÉSAR OU DE DEUS?

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“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. 

Essa é a famosa resposta de Jesus ao ser questionado pelos fariseus a respeito do imposto devido a César. Eu aqui fiquei pensando se um danado de um fariseu se aproximasse de mim com aquela carinha esperta, visse meus filhos e perguntasse:

— E essas crianças, você deve ou não criá-los para César?

Então… é bastante conhecido este conselho, que não criamos os filhos para nós, mas para o mundo. Aqui podemos traduzir César por mundo. Entretanto, nós cristãos temos uma outra responsabilidade, que está gravada em nossos corações, de educar os filhos na fé. É claro que uma resposta inteligente seria dizer que as duas coisas são importantes, tanto iniciar as crianças nos mistérios da nossa religião quanto incentivá-los e prepará-los para os inúmeros desafios que a vida oferece.  Poderíamos então responder:

— Vou prepará-los para as coisas do mundo e ensiná-los as coisas de Deus.

Bem respondido. O fariseu ficaria satisfeito. Mas nem um pouco católico. Com isso ficamos em cima do muro. Porque o que esquecemos, e é um esquecimento geral e próprio da nossa época, é que nestas coisas mencionadas na resposta existe uma hierarquia, têm as mais importantes e as menos importantes. Colocar as coisas nos seus devidos lugares é que é difícil, trata-se de um caminho longo numa estrada esburacada. Lembro-me agora de duas palavras que podem nos ajudar a elaborar essa resposta.

A primeira:

“Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. (São Lucas 12, 31)” 

Aqui está claro o que é mais importante. Primeiro Deus, depois o mundo ou César. E não basta ensinar as coisas de Deus. A experiência da religião é algo maior que o estudo ou o conhecimento. É preciso um comprometimento definitivo. É preciso entender realmente que esses filhos que temos são de Deus, receberam a vida Dele, fazem parte de um plano mais bem elaborado que qualquer plano que eu possa conceber com minha cabecinha limitada. Uma família numerosa nos ajuda, dia após dia, a aceitar esse fato.

Quando minha esposa ficou grávida do nosso quinto filho, eu descobri que havia um limite que eu acabara de ultrapassar. Era claro que nossa capacidade física e psicológica de criar filhos esgotara-se no número quatro. Não dava mais. Era uma grande loucura. Era evidente que não daríamos conta, e não demos. Hoje temos oito filhos e quando alguém nos pergunta como damos conta, a resposta é fácil: não damos conta!

A partir daquele nascimento ficou evidente que nossa família não estava saindo dos nossos rascunhos e cálculos, mas era uma história familiar que estava sendo escrita pela sabedoria infinita de Deus. Ou Ele assumia o comando ou afundávamos. Para uma família cristã numerosa fica fácil perceber o tamanho da sua fraqueza e a força que vem de Deus.

E aqui aparece a segunda palavra para nos ajudar:

“e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes; e o que é vil e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são. (I Coríntios 1, 27-28)”
 

Eu não sou filósofo nem teólogo (que fique bem claro), talvez eu me considere apenas um “paisólogo”, portanto desconheço as implicações teológicas e filosóficas dessas palavras de São Paulo, mas quando olho agora para meu oitavo filho, não posso deixar de me emocionar ao pensar que esse sim é uma coisa que nada é. O oitavo filho não existe no berço da gigantesca maioria dos casais férteis dessa geração. Imagina então o nono, o décimo primeiro, o décimo quinto… São coisas que nada são. Que nem existem. Não fazem parte das estatísticas. Fazem parte da loucura de Deus, são o que há de mais fraco no mundo, pois ninguém concorda com eles, ninguém os aceita, ninguém os planeja…

Pois bem, diante desse pequeno ser vermelhinho das perninhas finas eu me sinto um grande César. Pois eu sou, eu sempre fui alguma coisa. E agora essas coisinhas que nada são me viram do avesso, me destroem, diminuem minhas forças, aniquilam meus projetos, esfarelam minha inteligência, estraçalham minha autossuficiência.

Cada filho que nasce numa família cristã vai encaminhando cada vez mais essa família para Deus. Cada filho que nasce ajuda a derrubar e desmascarar os Césares que estão em nós. Cada filho é um grito de amor para calar o César ou o Mundo que se debatia para evitá-lo.

Percebo que meu amigo fariseu espera uma resposta.

Depois de observar meus meninos e minhas meninas, lembro de Jesus segurando a moeda do imposto, e segurando meu vermelhinho das pernas finas eu pergunto ao meu amigo fariseu:

— De quem é a imagem e semelhança dessa criança?

— De Deus — ele responde.

Olhando nos seus olhos, digo:

— Dou pois a Deus o que é de Deus.

E César? Ele quer saber… Digo-lhe que realmente é preciso preparar essas crianças para o mundo. Mas não com minhas forças. Prepará-los para o  mundo através de Cristo. “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo. (São João 16, 33)” Jesus já deu a resposta. Só Ele é capaz de pôr as coisas no seu devido lugar. Somente com a sabedoria que me concede o Espírito  Santo é que posso guiar meus filhos pelos caminhos da vida, através dos obstáculos do mundo e da arrogância de César.

Mas antes, em primeiro lugar, educá-los na fé. Antes ainda, em primeiríssimo lugar, oferecê-los inteiramente a Deus. Pois existe algo chamado abertura à vida. E a abertura à vida é o comprometimento de entregar os filhos a Deus antes mesmo de serem concebidos, antes mesmo de serem planejados.

Entregar aqueles que nada são nas mãos daquele que irresistivelmente É.

 

 

 

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