FAMÍLIA

TRATADO GERAL SOBRE O ESCORRIMENTO DAS COISAS

Deus prometeu que daria ao seu povo uma terra de delícias. Ao se aproximarem dessa terra, alguns homens enviados por Moisés confirmaram: “é de fato uma terra onde corre leite e mel.”

Pois bem, digo que a família cristã, principalmente a família numerosa, é também uma terra prometida. Uma terra onde escorre leite e mel. E não só!  Também escorre o refrigerante, o ketchup, o picolé derretido, o iogurte e até o xixi pelo lençol abaixo…

Quando o casal se compromete no altar a receber amorosamente os filhos como dom de Deus e a educá-los segundo a lei de Cristo e da sua Igreja, e se comprometem de verdade, com todo o coração e não só com a língua, neste exato momento Deus faz a eles uma promessa. A gente sabe que Deus gosta de uma promessa!

Deus promete que os recém casados possuirão uma terra. Uma terra cheia de aventuras e descobrimentos. Isso mesmo, Deus lhes promete uma família, o que significa que entrarão no mundo do escorrimento.

A família numerosa é uma terra onde escorre leite e mel e mais um montão de coisas:

Escorre a mostarda pela borda do cachorro quente. Escorre cola por dentro do estojo. Escorre sangue pelo joelho ralado. Escorre o suco na lancheira dentro da mochila. Escorre a tinta pelo isopor da maquete. Escorre o óleo da lata de atum no azulejo da cozinha. Escorre o sabão das bolinhas de mesmo nome. Escorre a sopa quente pela mesa do jantar. Escorre o vomitado pelo banco do carro na hora de ir pra escola.  Escorre secreções pelo nariz, que aqui na minha região chamamos de tatu, se bem que o tatu sólido não escorre, a gente tem que escavar com a unha do mindinho, já o tatu mais diluído, que é o que escorre de verdade, é mais conhecido como meleca.

Mas não é só isso que escorre. Escorrem também lágrimas de todo tipo. Lágrimas de emoção quando lemos uma singela cartinha de dia dos pais, lágrimas de sofrimento quando parece que um desses pequenos vai nos escorrendo por entre os dedos da mão e temos medo de perdê-lo para o mundo ou para o céu… Lágrimas de alegria quando eles nos surpreendem, quando passam num concurso, quando se formam, quando se casam… Aliás, existem situações em que as lágrimas de alegria não escorrem, mas transbordam, como quando realizamos a façanha de bater uma foto com todos os integrantes da família sorrindo e, cúmulo do absurdo: ninguém piscando; ou quando conseguimos formar 17 pares de meia com as 34 peças recolhidas do varal.

A coisa que mais me intriga nessa vida, depois dos lápis de cor, são as meias. Ainda vou escrever a respeito delas. Também terei que elaborar um tratado sobre o transbordamento. Mas antes precisamos concluir esta reflexão, pois o tempo também vai se escorrendo.

Nesta terra onde escorre de tudo (a lista é enorme, aqui só coube um pedacinho), e que chamamos de família, o que mais escorre são as bênçãos de Deus. Começando pela água que escorre pela testa do seu bebezinho, uma água que não escorre anônima mas escorre em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e te dá a certeza de que, mesmo se um dia aquele pequeno ser que te preenche a existência escorrer por entre seus dedos, uma mão maior que a tua o afagará.

2 comentários em “TRATADO GERAL SOBRE O ESCORRIMENTO DAS COISAS

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