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QUANDO O AMÉM É O COMEÇO

 

     Nem toda folha prefere a árvore. 

     Um dia ela abandona seu aconchego, corta as vias de acesso às raízes, larga o imenso corpo estático que a acalentava, supera a grande estrutura vegetal do seu passado e prefere o vento, a suave e decisiva escola da queda, decide ir embora, escapar, desnutrir-se, cair no desconhecido, sem rédeas, sem restos, sem rasuras, sem medo, sem medo da terra, sem medo da dor, sem medo, sem medo, amém. 

     Nem toda estrela prefere o brilho.

     Uma noite ela despenca, rápida, imprecisa, enfrenta os fundos do universo, deixa suas companheiras observando admiradas sua ruptura, seu desapego, sua coragem de apagar-se, de ser cadente, de ser única,  de não temer o escuro, de não temer a dor do escuro, de não temer o sofrimento que é despedir-se, a humilhação que é descer, o desespero de não ser vista, enfim, as outras estrelas sabem que a sua partida não foi uma fuga, mas uma força, a mesma força que nos faz fechar os olhos e confiar naquilo que não vemos, essa força de onde nasce a palavra amém. 

     O arco-íris não prefere o céu. 

     Uma tarde ele aparece e na mesma tarde se dissolve. Sai do chão,  alça voo bonito, traça um semicírculo perfeito, sem se desviar, levando no peito todas as cores, carregando na corcunda todo o céu,  simples como um símbolo,  comunicativo como um sino, limpo como um sonho, e volta ao chão, volta ao pó, enterra suas raízes coloridas na terra começando outra viagem,  agora por dentro, por debaixo do mundo, começa a ser não apenas um arco, mas um círculo completo, sem medo de ser inteiro, sem medo da dor de ser inteiro, sem medo do sofrimento que é recolher pedaços, da humilhação que é ajoelhar-se, sem medo do outro lado, sem medo e sem medo, amém. 

     Nem todo homem prefere o mundo. Um dia ele se liberta dos seus projetos, se desprende da sua vaidade pegajosa, abandona os consolos humanos e se coloca de joelhos debaixo da Cruz, ao lado de Nossa Senhora, e contempla aqueles pregos incapazes de impedir que a força do amor se espalhe por todo o espaço e por todo o tempo, contempla aquela Mulher que lhe diz suavemente: “estarei sempre contigo, agora e na hora da tua morte,” contempla aquele Homem que lhe revelou o reino, que lhe perdoou todos os pecados, que iluminou as trevas, que venceu o mundo, e que lhe fala ao pé do ouvido: eu te livrarei de todo mal, não tenha medo, não tenha medo, este é apenas o começo, amém. 

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